Não me surpreende.
Há movimentos na política que não são saltos — são travessias.
Kátia Abreu nunca foi de margens estreitas.
Veio da terra firme do agronegócio, das planícies largas onde o Brasil produz,
mas aprendeu, cedo, que o poder não se cultiva apenas com sementes —
exige diálogo, tempo, cálculo e, às vezes, coragem de contrariar o próprio campo.
Quando o vendaval do impeachment soprou sobre Dilma Rousseff,
ela não recuou.
Permaneceu — firme, quase teimosa —
como árvore que não se curva ao primeiro trovão.
Agora, ao abrigar-se sob a bandeira do Partido dos Trabalhadores,
não muda de pele: revela, antes, a coerência de um fio que já vinha sendo tecido.Há quem veja contradição.
Outros, estratégia.
Mas talvez seja apenas política em estado puro —
essa arte de construir pontes onde antes só havia desconfiança.No governo de Luiz Inácio Lula da Silva,
ela pode ser isso:
ponte viva entre o campo e o Palácio,
voz que traduz interesses sem perder o sotaque da terra.
E se o destino lhe reservar o comando do Tocantins,
não será surpresa — será consequência.
Porque há figuras que não cabem apenas em cargos:
elas ocupam espaços.
Kátia é dessas.
Não pelo consenso — que raramente a acompanha —
mas pela capacidade de permanecer relevante
quando tantos já se tornaram apenas memória.
Na política, como na vida,
os caminhos mais interessantes
não são os óbvios —
são os que parecem improváveis
até se tornarem inevitáveis.















