Dizem que se você olhar a Lua com atenção, em uma noite de céu limpo, verá a silhueta de um ser humano empunhando uma lança, montado em um cavalo e se digladiando com um dragão. O coitado do dragão leva a fama de vilão. Já ao homem é atribuída a santificação, sendo reconhecido em diversas religiões, ora como São Jorge, ora como Ogum.
Diz a ciência que a Lua é um deserto de regolito, silêncio e vácuo. Para a NASA e o Pentágono, ela virou o novo eldorado da tabela periódica com um plano claro: erguer uma Estação Lunar até 2028 e começar as escavações. Eles estão de olho nas terras raras – o neodímio, o lantânio, o praseodímio – elementos de nomes complicados que garantem a vida dos smartphones e a precisão dos mísseis, entre outras aplicabilidades. Buscam também o Hélio-3, o combustível prometido para uma fusão nuclear.
Os EUA precisam das terras raras para alimentar a indústria. O cavalo, o dragão e o ser místico habitam a Lua para alimentar o pensamento lúdico dos poetas e devotos. Mas, enquanto ambos sonham e o dragão solta fogo pelas ventas, partiu do Cabo Canaveral um foguete, totalmente controlado por Houston, que pretende circular pela face visível e oculta da Lua, em busca de um local adequado para estabelecer um novo condomínio americano denominado Estação Lunar.
Já sofro por antecipação ao vislumbrar a inevitável cena de um astronauta desembarcando com sua broca de diamante, pronto para extrair minérios estratégicos para a hegemonia do Hemisfério Norte. Ele quer minerar o brilho da Lua, mas os meros terráqueos aqui só querem que o brilho da Lua brilhe!
Nesse devaneio, penso como será quando o astronauta der de cara com as patas do cavalo e a inusitada figura de um ser místico empunhando uma lança! O que dirá ao Centro de Controle quando o sensor de movimentos detectar não um sismo lunar, mas o bater de asas de uma fera que cospe fogo no vácuo ?
Há algo profundamente irônico nessa corrida espacial. O homem gasta bilhões para encontrar elementos químicos que permitam a comunicação instantânea na Terra, enquanto Jorge/Ogum, sem Wi-Fi ou Satélite, recebe as preces de milhões de devotos apenas pelo reflexo da luz solar.
Por mais que instalem laboratórios de ponta na Lua, a sua maior riqueza continuará sendo aquela que a tecnologia não conseguirá extrair: a bucólica certeza que entre crateras e gases nobres, existe um guerreiro armado e montado, pronto para defender aquele território que é de toda a humanidade. Se preciso for, peçamos emprestado o Dragão!
ROSANNA MEDEIROS FERREIRA ALBUQUERQUE
É procuradora do Estado aposentada.















