O Estatuto da Pessoa Idosa está lá, bonitinho, na prateleira. A Constituição jura que somos todos iguais. Mas, no dia a dia, inúmeras vezes o servidor com mais tempo de serviço público é tratado como um hardware antigo: útil para segurar a porta, mas lento para rodar o software da moda.
O etarismo na repartição é um sarcasmo involuntário. Valoriza-se quem usaa estratégia de “TI High-Low”, mas ignora-se a perspicácia de quem sabe exatamente em qual parágrafo está o erro que vai anular o edital daqui a seis meses. É a síndrome do “novo é melhor”, mesmo que o novo muitas vezes não saiba a diferença entre um despacho e uma declaração de amor.
Aos vinte e poucos anos, ele era o “jovem prodígio” que passou no concurso estudando em PDF pirata. Aos sessenta, virou “o colega que ainda imprime e-mail”. Entre um extremo e outro, o serviço público brasileiro é o palco perfeito para a comédia que chamamos de etarismo – aquela arte sutil de julgar a competência de alguém pela quantidade de colágeno no rosto ou pela facilidade em achar o botão “compartilhar” no Teams.
A cena é clássica. O gestor, um rapaz que usa termos como mindset e disrupção, mas não sabe onde fica o arquivo físico, olha para o servidor veterano como se estivesse diante de um fóssil de preguiça-gigante. “Doutor Aristides não vai se adaptar”, cochicham no café, enquanto Aristides, que redigiu a metade dos processos que tramitam naquela Secretaria, apenas observa a juventude se afogar em um copo d’água porque o sistema caiu.
É verdade que o Aristides entrou no serviço público quando os processos eram costurados com agulha e linha (literalmente). Hoje, ele olha para o sistema eletrônico com a mesma curiosidade de um astronauta observando uma nebulosa. Mas, ao lado dele está o Enzo, o recém-empossado. Enzo quer “automatizar o fluxo” e usa palavras que soam como marcas de detergente: agile, scrum, sprint.
Enzo abre seis planilhas simultâneas, três abas de inteligência artificial e tenta resolver um problema jurídico complexo em cinco minutos. O computador trava. Enzo entra em colapso existencial. Aristides, com a fleuma de um mestre Yoda, que já viu o cometa Halley passar duas vezes, levanta-se lentamente, coloca a mão no ombro do jovem e diz: “Calma, o problema do processador vai se resolver, mas a redação dada ao inciso terceiro do artigo nono precisa ser modificada”.
Nas reuniões, o preconceito é um perfume barato: está no ar, mas ninguém admite que passou. É o convite para o curso de tecnologia que “esquece” de incluir os maiores de 60 (afinal, “eles já estão quase aposentando, né?”). É a promoção que vai para o recém-chegado porque ele tem “energia”, ignorando que a energia do veterano é filtrada por décadas de quem já viu dez planos econômicos e cinco reformas administrativas e continua de pé.
O etarismo tenta vender a ideia de que os servidores veteranos são”computadores de tubo”. Mas a brincadeira é outra: eles são o Google Mapscom memória afetiva. Quando surge uma crise tida como inédita, que desespera todo o departamento, o servidor sênior solta aquela frase mágica: “Já fizemos isso em 92, a solução está naquele armário que ninguém abre porque dizem que tem um fantasma.”
Nesse momento, como em um passe de mágica, a Secretaria todapercebe que ter alguém que sobreviveu a cinco moedas diferentes é como ter um guia de sobrevivência na selva, tendo sido ele, também, amigo de muitos leões.
O lado divertido do preconceito tecnológico é a inversão de papéis. O jovem ri porque o veterano pergunta “onde clica para salvar?”, mas o veterano sorri de volta quando o jovem não sabe preencher um ofício sem usar um template pronto.
É uma troca de figurinhas: o jovem ensina a configurar o modo escuro no monitor para não cansar a vista; o veterano ensina a ler as entrelinhas de um processo para não cair em cilada jurídica. No fim do dia, o serviço público é uma grande colcha de retalhos. Se fosse só de jovens, a colcha rasgaria na primeira puxada, por falta de costura. Se fosse só de veteranos, a colcha seria pesada demais para carregar.
Mas a grande sacada do cotidiano é entender que a experiência é o vinho que melhora o banquete, e o entusiasmo jovem é o tempero que não deixa a comida esfriar. Sem amargura, sem preconceitos de parte a parte, sem barreira comunicacional; apenas com o reconhecimento de que, na fila do refeitório da vida, todos estamos caminhando para o mesmo lugar, sendo muito mais divertido ir batendo papo com quem já conhece os atalhos.
ROSANNA MEDEIROS FERREIRA ALBUQUERQUE
É procuradora do Estado aposentada.
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