PARTE I · DIAGNÓSTICO
O Tocantins tem 1.171.342 eleitores registrados. Desse total, 591.881 são mulheres — 50,53% do eleitorado. Em Palmas, a proporção sobe para 52,81%. As mulheres são maioria absoluta em praticamente todos os municípios relevantes do estado.
Nas eleições municipais de 2024, dos 1.591 candidatos eleitos, apenas 335 eram mulheres — 21,06% dos eleitos. A maioria que vota é governada pela minoria que ocupa os cargos.
Nas eleições gerais de 2022, das 531 candidaturas para cargos estaduais e federais, apenas 185 eram de mulheres. Foram eleitas quatro: duas deputadas estaduais, uma senadora e uma suplente. O Tocantins foi um dos quatro estados do país que não elegeu nenhuma deputada federal naquele ciclo.
Na Assembleia Legislativa do Tocantins, a 10ª Legislatura iniciada em 2023 registrou um retrocesso: a bancada feminina caiu de cinco para três deputadas. Cláudia Lélis, Janad Valcari e Vanda Monteiro são as únicas mulheres num colegiado de 24 parlamentares — 12,5% das cadeiras.
| “O problema não é de escassez de mulheres na política tocantinense. É de escassez de condições para que elas cheguem onde o poder está.” |
PARTE II · CRÍTICA AO SISTEMA
A cota que não cota
Desde 1997, a legislação eleitoral brasileira exige que os partidos reservem no mínimo 30% das candidaturas para mulheres. O resultado no Tocantins é de 35,98% de candidaturas femininas para vereadora em 2024 — suficiente para cumprir a exigência, insuficiente para produzir representação real.
Cota de candidatura não é cota de eleição. Partidos cumprem a exigência legal lançando mulheres sem estrutura, sem financiamento proporcional e sem apoio das lideranças internas. O próprio TRE-TO já identificou formalmente a prática das “candidatas laranjas” — registradas para cumprir a cota, sem qualquer intenção real de competir.
Em 2020, das 2.816 mulheres candidatas a vereadora no Tocantins, apenas 228 foram eleitas — taxa de conversão de 8,1%. A cota garante a entrada na lista. Não garante as condições para competir dentro dela.
| O QUE A COTA DE 30% NÃO RESOLVE |
| — Distribuição desigual de fundo eleitoral dentro dos partidos |
| — Ausência de mulheres nas posições de liderança das coligações |
| — Candidaturas lançadas sem estrutura de campanha real (“laranjas”) |
| — Sub-representação feminina nas listas mais competitivas |
| — Falta de mentoria e rede política para candidatas estreantes |
| — Concentração de tempo de rádio/TV em candidatos com maior votação histórica |
A NARRATIVA QUE ATRAPALHA
Uma leitura rasa do problema atribui a baixa representatividade ao desinteresse das mulheres pela política. Os dados contradizem: o Tocantins registra mais de 90 mil mulheres filiadas a partidos políticos. Elas estão nos partidos, estão no eleitorado em maioria. O que falta não é presença. É acesso às condições que convertem candidatura em mandato.
| “A pergunta certa não é ‘por que as mulheres não se elegem?’. É ‘quais condições o sistema oferece para que elas possam competir de verdade?’. São perguntas diferentes. E levam a respostas completamente diferentes.” |
PARTE III · CAMINHOS
O que avançou — e o que o avanço ainda não resolve
Nas municipais de 2024, o Tocantins elegeu 335 mulheres — crescimento de 19,64% em relação às 280 eleitas em 2020, segundo dados do TRE-TO. Desse total, 25 ocuparão prefeituras e 274 cadeiras de vereadora nas câmaras municipais.
Mas crescimento sobre uma base baixa ainda resulta em sub-representação. Sair de 17,6% para 21% de mulheres eleitas em quatro anos, num estado onde elas são maioria do eleitorado, não é vitória — é passo.
Em estados com eleitorado feminino majoritário como o Tocantins, candidatas bem posicionadas, com financiamento real e rede de apoio estruturada, têm eleitorado disponível. O problema não é de demanda — é de oferta qualificada.
| O QUE UMA AGENDA DE REPRESENTATIVIDADE REAL EXIGE |
| — Distribuição proporcional real do fundo eleitoral dentro dos partidos |
| — Programas permanentes de formação política para lideranças femininas |
| — Mapeamento territorial de zonas com alto potencial para candidatas |
| — Posicionamento estratégico nas listas — não apenas cumprimento de cota |
| — Fiscalização efetiva contra candidaturas laranjas pelo sistema eleitoral |
| — Mentoria e transferência de rede entre parlamentares e novas candidatas |
Quando mais da metade de um eleitorado vai às urnas e menos de um quarto do resultado representa esse grupo, o problema não é de mobilização. É de arquitetura. E arquitetura se muda com decisão política — não com boas intenções declaradas em nota de partido.
RUAN LOPES
É cientista político, pós-graduado em Ciências Políticas, especialista em análise de dados eleitorais e consultor político.
(Fonte dos dados: TSE · TRE-TO · Eleições Municipais 2024 · Eleições Gerais 2022 · IBGE 2022)















