A história costuma repetir o mesmo refrão diante de qualquer avanço social: primeiro vem o medo, depois a resistência e, só mais tarde, a sociedade percebe que o mundo não acabou. Apenas mudou.
Quando se aboliu a escravidão, anunciaram o colapso da economia. Diziam que o país quebraria sem o trabalho forçado. Não quebrou. O que faliu foi a lógica desumana de tratar gente como mercadoria.
Quando se proibiu o trabalho infantil, também houve quem previsse a ruína.
Alegavam que famílias passariam fome, que empresas não sobreviveriam, que a economia perderia sua sustentação. O Brasil não afundou. Apenas começou, ainda que lentamente, a reconhecer que infância não é mão de obra barata.
Quando mulheres, pobres e analfabetos conquistaram o direito ao voto, repetiu-se o mesmo discurso apocalíptico. Diziam que a democracia seria destruída pela participação popular.
O país continuou de pé, e tornou-se mais democrático justamente porque mais gente passou a existir politicamente.
Agora, diante da discussão sobre a escala 5×2, surgem novamente os profetas do desastre. Falam em empresas fechando, em caos econômico, em impossibilidade de adaptação. É o velho medo vestido com roupas novas.Toda ampliação de direitos encontra resistência daqueles que confundem privilégio com necessidade econômica. A história mostra, porém, que sociedades não afundam quando trabalhadores ganham dignidade.
O que afunda, muitas vezes, é apenas o conforto de quem sempre lucrou com jornadas excessivas, direitos limitados e vidas consumidas pelo trabalho.
O curioso é que os mesmos argumentos atravessam os séculos quase intactos. Mudam os temas, mudam as épocas, mudam os personagens, mas permanece a antiga dificuldade de aceitar que o progresso social nunca veio sem enfrentar interesses consolidados.
O Brasil nunca afundou por reconhecer direitos. Ao contrário: sempre que ampliou a dignidade humana, tornou-se um pouco menos injusto.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.















