A cidade repete o nome do mês como se soubesse que os calendários mentem — que abril não é apenas um número, mas uma dobra no tempo onde certas histórias se encontram e se interrogam.
Em 1980, enquanto tecnologias brasileiras eram exibidas nesta mesma cidade e o Muro ainda dividia a Europa em dois mundos que não queriam se ver, um homem era algemado no ABC paulista.
Não por crime. Por greve. Por ter reunido 200 mil trabalhadores sob o argumento mais antigo e mais subversivo do mundo: o de que o trabalho tem dignidade. A ditadura respondeu com o único argumento que conhecia — a algema. O torneiro mecânico foi levado.
Os estandes de Hannover continuaram iluminados.
Quarenta e seis anos não são uma eternidade. São, porém, tempo suficiente para que a ironia se instale com método e crueldade suave.O mesmo homem — não um descendente simbólico, não uma metáfora de redenção, mas o mesmo corpo envelhecido, as mesmas mãos que pararam fábricas — desceu de um avião de Estado e foi recebido com honras militares no Palácio de Herrenhausen.
O chanceler esperava na porta. As bandeiras dobravam ao vento como se praticassem uma reverência que a História raramente concede.
E ali estava ele, discursando na maior feira industrial do mundo, onde o Brasil trouxe 140 empresas, hidrogênio, inteligência artificial, a promessa verde de uma transição energética que o Sul Global ainda precisa vender ao Norte Global para que ele a compre.
As mesmas mãos que assinaram fichas sindicais assinaram dez acordos bilaterais. O mesmo nome que constou de processos militares constou de comunicados diplomáticos. Hannover novamente — e novamente o Brasil como país homenageado, como em 1980, quando sequer havia um Lula livre para presenciar a homenagem.
A vitória pessoal é inegável. Seria desonestidade intelectual negá-la. Há algo de grandioso, e ao mesmo tempo de perturbador, nessa simetria que a história fabrica às vezes — como se tivesse humor e paciência suficientes para esperar 46 anos pelo efeito dramático. O torneiro virou estadista. O preso virou anfitrião.
O subversivo virou interlocutor legítimo do capitalismo industrial europeu, reconhecido como um dos grandes líderes do nosso tempo. Tudo isso é real. E tudo isso importa.
Lula evocou a própria prisão no discurso. Era inevitável — e era legítimo. Nenhum roteirista teria coragem de escrever cena tão literal. Mas o que deu grandeza àquela evocação não foi o drama pessoal — foi o que ela representa coletivamente: a prova de que a história pode ser dobrada, de que o poder não é monopólio eterno de nenhuma classe, de que um homem nascido na pobreza do Nordeste pode, pela força da palavra e da persistência, sentar-se entre os que decidem o destino do planeta.
720 milhões de pessoas formarão um mercado único quando o acordo Mercosul-UE entrar em vigor. A frase carrega a assinatura de um estadista que não se contentou com o possível doméstico — que levou o Brasil de volta ao centro das grandes decisões globais, num mundo em que a cooperação se torna cada vez mais rara e cada vez mais necessária.
Há beleza nessa manhã de abril alemã.
Há justiça — não a poética apenas, mas a histórica — na chegada do algemado ao salão dos poderosos. O mesmo chão de Hannover que testemunhou a ausência do torneiro mecânico testemunhou o discurso do estadista. A mesma cidade. O mesmo abril. E um Brasil que, por esse homem improvável, voltou a ser levado a sério no mundo.
A história, quando quer, tem o timing de um grande romancista.
Ninguém pode negar que Lula é reconhecidamente um grande estadista!
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.















